
Há muito a ser dito sobre a série Adolescência da Netflix. Uma produção brilhante que nos ajuda a olhar de forma crua e cruel para os impactos das redes sociais sobre as crianças e adolescentes.
*Alerta de Spoiler a seguir*
Jamie é vítima e culpado ao mesmo tempo. Reconhecê-lo também como vítima é parte indispensável para articularmos reparações possíveis sobre as adolescências afetadas pelos algoritmos, e as intervenções necessárias para impedir que situações como as que a série narra sigam se repetindo.
Jamie é um menino que, como todos nós, quer ser amado. A pergunta que ele faz a psicóloga em sua última consulta escancara seu desespero e sua vulnerabilidade diante do desejo ou do desprezo do outro. Você gosta de mim?
Podemos interpretar a pergunta e a própria cena como dizendo respeito a atração sexual pela terapeuta e o desejo de ser sexualmente desejado. Mas Jamie tem a mesma pergunta em relação ao pai. Se o pai continuaria a gostar dele se soubesse a verdade.
E todos nós nos fazemos essa pergunta: se o outro continuaria a gostar de nós se soubesse a verdade do que somos. Na adolescência, a necessidade de se sentir pertencente é determinante e a criação de máscaras para performar o que acredita que se espera de si é uma das causas da angústia própria dessa fase da vida.
Jamie, aos 13 anos, performa determinada masculinidade, aquela que tem na violência absoluta a afirmação de seu valor e dignidade. Seu crime é a passagem ao ato do equívoco resultante da pouca elaboração de seu conflito psíquico.
Em Adolescência, não estamos diante de um psicopata e nem cabe analisar Jamie numa perspectiva psicopatológica. A perturbação e angústia que a série provoca está relacionada com o fato do ato de Jamie ser uma produção social.